SextaFeira

Texto (artigo, crônica, perfil) Semanal



NÃO ME MATE


Rogério Newton*


Outro dia escrevi sobre o sofrimento de animais presos no Zoobotânico de Teresina. Depois fiquei pensando: agora, mais do que nunca, tenho a obrigação de escrever sobre humanos encarcerados.

Por força da profissão, fui razoável número de vezes a presídios, porém deixei de faze-lo, não pude mais agüentar. Mas, como tinha de escrever sobre o tema, senti que era preciso voltar ao local do crime. A oportunidade apareceu: fui convidado para acompanhar representantes de entidades em visita a adolescentes na Casa de Custódia.

Entrar num presídio, mesmo como visitante, é uma experiência da qual não se sai incólume. Antes que a mente comece a raciocinar, sente-se algo estranho, pesado, no ar. Uma onda se arremessa contra as pessoas, as coisas, deixando-as enredadas numa teia invisível. Quem está do lado de cá não está livre dela. Mal necessário, dizem os pragmáticos. Ou somente mais um absurdo humano?

Fomos recebidos com cordialidade metálica por funcionários de coletes escuros. Deixamos os celulares na portaria e, depois de alguns pedaços de dedos de prosa no gabinete do diretor, entramos num pequeno corredor ao fim do qual uma porta de ferro se abriu. Prosseguimos e outra grade e mais outra foram destrancadas. A impressão é que atravessávamos um túnel até os pavilhões. Primeiro, o dos homicidas, paradoxalmente o mais calmo. Depois, o dos estupradores, até chegarmos ao que foi reservado para os jovens infratores. Há um quadrilátero ensolarado entre os dois grupos de celas. Os presos não ficam sem ver a luz. Mas nenhum movimento escapa aos vigias armados na guarita do telhado. Até uma mosca que se move pode ser uma ameaça. Tem que ser assim, diz a lei, principalmente a não escrita. Escapei pela clarabóia da memória: quando menino, cansei de ver carcereiros em conversa animada com prisioneiros na cadeia de Oeiras.

É possível ter uma vida digna na prisão, mesmo sob tratamento cruel? Que eu saiba, o mais impressionante exemplo de ser humano que não sucumbiu a esse flagelo é o do psicólogo austríaco Vitor Frankl. Prisioneiro em Aushwitz, na Segunda Guerra, ele viu sua família inteira ser executada nas câmaras de gás e seus companheiros cometerem suicídio ou ficarem loucos. Nu e sem comida, percebeu que os nazistas tinham lhe roubado tudo, menos a liberdade de escolher como seria sua resposta àquela situação. Passou então a imaginar-se liberto, ensinando seus alunos em Viena, inspirado na sabedoria adquirida com o sofrimento. Esse ideal deu-lhe tanta coragem que ele não só sobreviveu ao inferno como também transformou-se numa espécie de guia. Ao sair da prisão, criou a Logoterapia, novo ramo da Psicologia.

Outro exemplo de prisioneiro “transcendente” é o de Henry David Thoreau. Por se recusar a pagar impostos aos EUA, que guerreava contra o México e mantinha a escravidão, ele foi encarcerado, mas se sentiu o homem mais livre do mundo, pois, segundo ele, ninguém podia prender sua consciência. Além disso, as reflexões durante sua permanência de apenas um dia no cárcere serviram de base para escrever A Desobediência Civil.

Mas, terminemos esse relato roto da visita à Casa de Custódia, que, aparentemente, não possui transcendência alguma. Depois de conversar com alguns presos, ouvir suas queixas, explicações do diretor e bate-boca entre alguns visitantes, voltamos aos carros, que nos levaram de volta ao cotidiano, deixando para trás o presídio e suas dores. De minha parte, senti-me impotente para melhorar alguma coisa ali e envergonhado por fazer parte de mais uma comissão inútil. Os adolescentes continuam sem lugar adequado. O presídio não mudou um milímetro com a nossa visita. Semanas após, os jornais noticiaram prática de tortura. Os prisioneiros, quase todos pobres, pretos e de pouca escolaridade, cumprem seus destinos de homens e de almas que sofrem. De volta à cidade, enquanto me remexia no banco traseiro, a única consolação era a frase que Vitor Frankl gostava de repetir: “o que não me mata me fortalece”.

*Rogério Newton é escritor integrante da Geração Pós-69



Na próxima SEXTAFEIRA, 21/3, leia aqui, nesta Seção, texto inédito de Luciano Melo.

 

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