Paulo Machado
Paulo Machado – Professora Niède Guidon, quais as
repercussões das teses levantadas pelo grupo de pesquisa sob sua coordenação,
decorrentes dos estudos desenvolvidos no município de São Raimundo Nonato, no
Piauí, nas comunidades científicas nacional e internacional?
Niède Guidon – As pesquisas anteriores
ocasionaram uma grande reação por causa das datações. Porque há uma teoria que
propõe que o Homem penetrou na América do Norte há cerca de 30 mil anos e que
somente há l2 mil anos ocorreu a penetração
na América do Sul. Nós encontramos, aqui, na região do Parque Nacional
da Serra da Capivara, sítios arqueológicos com
datações que alcançaram até 48
mil e setecentos anos. Quando ocorreu a
divulgação dessa informação nova, houve uma grande resistência da
comunidade científica em aceitá-la. Principalmente dos nossos colegas
norte-americanos, porque sugiu na
América do Norte a teoria da primazia da penetração do Homem no Continente Americano pelo norte.
Para os norte-americanos era muito difícil aceitar a existência de prova de penetração do Homem na América
do Sul em data anterior á penetração ocorrida na América do Norte. Nós tivemos, durante vários anos, que
enfrentar essa resistência . Os nossos
colegas norte-americanos escreveram artigos
questionando os resultados das nossas pesquisas. Á época, nós
respondemos às insinuações dos autores dos artigos que pretenderam pôr em
descrédito as nossas pesquisas. Mas, agora, no mês de fevereiro de 97, a
revista “The Science” publicou um artigo de
Paul Millareths, um ferrenho crítico
norte-americano do resultado das nossas pesquisas, no qual ele informa que pesquisou no Chile e que os resultados
obtidos demonstraram que o Homem estava na América do Sul há muito mais tempo
do que informam os textos científicos
até então escritos. Este cientista publicou uma monografia sobre a descoberta
no Chile, em que há informações sobre o
sítio arqueológico Monte Verde e sobre
datações bastante antigas. Este
cientista reconheceu a validade dos
resultados das nossas pesquisas e, inclusive, pediu-nos desculpas pelo
julgamento apressado que fez. Hoje, não existe mais nenhuma contestação a
respeito dos resultados das nossas pesquisas, porque os pesquisadores norte-americanos também encontraram provas
de datações antigas na América do Sul.
Paulo Machado – Qual seria a hipótese científica a ser trabalhada, depois da revisão de datações da presença da espécie humana no Continente Americano?
Niède Guidon – A questão é a seguinte: toda a teoria do povoamento do Continente Americano estava baseada na primazia da via de penetração pelo norte da América. Agora, nós temos que começar a levantar outras hipóteses e, sobretudo, temos que começar a trabalhar com a possibilidade, muito mais plausível com a realidade de um Continente tão vasto, que vai do pólo norte ao pólo sul, do povoamento ter ocorrido por uma pluralidade de vias. Esta é una hipótese científica que ninguém mais pode negar, nem mesmo os pesquisadores norte-americanos. Nós estamos trabalhando com esta hipótese há l5 anos e os pesquisadores norte-americanos estão levantando esta hipótese agora. A via marítima é, também, sem dúvida, uma hipótese científica válida. O professor Adalto Araújo, que era diretor da Escola Nacional de Saúde Pública, que trabalha conosco, analisou fezes de um fóssil, descoberto aqui no Piauí, e concluiu que no Piauí , há 7 mil e quinhentos anos, já existia o parasita causador da malária. E o parasita causador da malária não poderia ter passado pelo Estreito de Bering, que é muito frio, pois não resistiria à baixa temperatura. O trabalho do professor Adalto Araújo é conclusivo: aqui, no Piauí, chegaram povos que saíram de países de clima quente e viajaram por caminhos de clima quente.
Paulo Machado – As atividades desenvolvidas pelo grupo de pesquisadores sob sua coordenação a princípio não foram bem aceitas pela Comunidade são-raimundense. Atualmente, como a senhora vê a aceitação da Comunidade são-raimundense às atividades desenvolvidas pelo grupo de pesquisadores?
Niéde Guidon – É preciso considerar que trabalhamos com uma comunidade acostumada a uma prática política paternalista. Quando dizemos aos comunitários que não pretendemos distribuir peixes para eles, mas que pretendemos ensiná-los a pescar, eles respondem que querem receber o peixe assado e, se possível sem espinhas. A comunidade são-raimundense está acostumada a receber dinheiro para votar. Ela ainda não entendeu que a verdadeira cidadania é construída a partir da capacidade do cidadão exprimir, com liberdade, a sua vontade política. Os são-raimundenses esperam ser pagos para exprimir a vontade política daqueles que espoliam. Vivenciam uma realidade social muito difícil e estão acostumados á espera do período pré-eleitoral, quando ouvem promessas de que ganharão o paraíso, promessas que nunca se realizam. Quem tem um outro discurso e, sobretudo, age de outra maneira, passa a ser visto com desconfiança pela comunidade. Os são-raimundenses acham que nós estamos aqui para conseguirmos dinheiro. O fato de termos começado com uma Missão Francesa, que vinha anualmente fazer uma missão de dois ou três meses e em seguida ia embora, talvez tenha gerado este entendimento. Os comunitários não conheciam a infra-estrutura que tínhamos na França. Agora, que estamos aqui, eles tomaram conhecimento de que somos capazes de construir uma boa infra-estrutura na região. Porém, não conseguem compreender porque trabalhamos para uma Instituição sem auferirmos benefícios pessoais. Hoje, fui ao Parque para realizar um trabalho e encontrei a estrada de acesso fechada por uma cerca. Indaguei a alguns comunitários o que era aquilo, e eles responderam que tinham construído a cerca porque nós tínhamos mandado construir uma guarita na entrada do Parque. Em seguida , indaguei se alguém já tinha impedido a eles de entrarem ou saírem do Parque. Eles responderam que não. Então, disse-lhes que não existia razão para fecharem a estrada. Eles não conseguiram, ainda, entender que o Parque Nacional é uma esperança de desenvolvimento social, mas para que a esperança se torne real, todos têm que se aliarem ao Parque, porque o seu desenvolvimento vai possibilitar a melhoria de vida para toda a comunidade. Nós lutamos para fazer o cidadão são-raimundense chegar ao estágio da dignidade. Queremos que o cidadão são-raimundense tenha conciência para dizer: “Sou pobre, mas sou digno. Sei o que posso fazer, o que a lei me permite fazer”. Em vez de caçar tatus clandestinamente dentro do Parque. Queremos que o cidadão são-raimundense tenha a capacidade de exigir das autoridades o respeito aos seus direitos. O que dificulta a nossa relação com a comunidade é o fato de querermos que os comunitários sejam cidadãos como nós somos. É uma atitude que nós entendemos que está faltando. Nós queremos que cada um tenha consciência de seus direitos e respeite os direitos dos outros. Infelizmente, não é o que está acontecendo aqui.
Paulo Machado – A partir das pesquisas e estudos já realizados pelo grupo sob sua coordenação, pode se aferir a multiplicidade de traços culturais dos povos pré-históricos que habitaram a região que hoje é conhecida como Piauí?
Niède Guidon – Sim. Os povos pré-históricos que habitaram esta região tinham uma riqueza cultural muito grande. Aliás, quando decidimos trabalhar aqui, pretendíamos chegar a esta constatação. Porque sendo esta uma região de fronteira, com formações geológicas entre a planície do São Francisco, que é do pré-cambriano, e a serra, que é uma formação sedimentar, que criou o que chamamos fronteira ecológica, onde ocorrem muitos tipos de ecossistemas, possibilitou às sociedades humanas terem acesso a uma multiplicidade de recursos. A conjunção desses fatores gera uma possibilidade teórica da existência de grande diversidade cultural. Foi a partir dessa hipótese de base que nós elaboramos o nosso projeto de pesquisa. Essa hipótese tem se confirmado a cada etapa de execução do projeto. Achamos necessário que o Brasil conheça a riqueza cultural dessas sociedades pré-históricas, autênticas e autóctones, expressas nessas pinturas rupestres, que são um sistema de comunicação maravilhoso, com todos os detalhes da vida daquelas sociedades, representados através do domínio de uma tecnologia avançada. Queremos mostrar ao Brasil, depois de vinte e sete anos de trabalho, a constatação da hipótese da multiplicidade cultural das sociedades pré-históricas que o habitaram o Piauí. Nós nunca tínhamos encontrado pontas de flechas durante nossas pesquisas.
Pontas de flechas são os achados mais comuns da arqueologia. Mas, aqui, nunca tínhamos achado e nem os colecionadores. Faz duas semanas que, escavando uma sepultura, nós encontramos, ao lado do esqueleto, duas pontas de flechas magníficas e uma delas é da espécie escama de peixe. Nós as encontramos associadas ao esqueleto e isto significa mais uma diferenciação cultural. Estamos com todo esse carvão, que vamos mandar datar para sabermos qual a época da ocorrência do sepultamento e destas pontas de flechas. Nesta semana, descobrimos um novo sítio de pinturas rupestres. Nós já ultrapassamos a marca de quatrocentos sítios, fato que informa que esta região era densamente povoada por sociedades constituídas de pessoas que não eram necessitadas, miseráveis, como é a sociedade atual.
Paulo Machado – Em um passado próximo,
no século XVII, houve um processo de ocupação do território da Capitania de São
José do Piauí por portugueses e espanhóis, que resultou no extermínio de nações
indígenas. Há alguma relação étnica entre as nações indígenas exterminadas e os
povos pré-históricos que primeiramente ocuparam essa região?
Niède Guidon – Sem dúvida esses povos pré-históricos, que viveram aqui, são os ancestrais dos índios que foram encontrados na região pelos invasores. Nós trabalhamos com a hipótese de que esses povos pré-históricos, que fizeram as escrituras, que nós chamamos de povos da tradição nordeste, são os ascendentes dos índios de língua Jê. Por que pensamos assim? Porque nós observamos cerimônias dos grupos de índios de língua Jê em Goiás , filmamos cerimônias dos grupos de índios de língua Jê de Pernambuco, que são índios que perderam inclusive a identidade cultural da língua e foram submetidos a um processo perverso de aculturação, e constatamos que mesmo aculturados eles mantêm algumas tradições culturais. Uma delas é a dança em volta dos umbuzeiros. Esta manifestação cultural nós identificamos registrada nas pinturas rupestres localizadas aqui. Filmamos em vídeo a dança do umbuzeiro e através do congelamento de imagens das cenas filmadas fizemos comparacões com as pinturas rupestres de l2 mil anos atrás. Constatamos que as sequências de cenas são idênticas e há identidade em relação ao número de pessoas que participam da dança e da maneira como as mulheres põem as mãos nos ombros dos homens. Entendemos que fatos culturais como esses deveriam motivar os estudiosos da Cultura Brasileira a refletir sobre a multiplicidade cultural das sociedades pré-históricas, pois são culturas que têm mais de l2 mil anos e que estão sendo ignorados. Infelizmente, o brasileiro se encontra, de certo modo, aculturado. Ousamos afirmar que esses homens pré-históricos, que estiveram aqui, que deixaram essas escrituras, tinham muito mais cultura do que a sociedade de hoje, que não tem mais nada. A sociedade de São Raimundo Nonato, por exemplo, não tem mais nem a música que tinha há quinze anos, quando até eu saía para o forró. Hoje, não saio mais, porque a musiquinha que ouço aqui é a mesma que ouço em qualquer lugar do mundo. Trabalhamos com a hipótese de que os grupos de índios da etnia Jê se originaram dos povos pré-históricos que habitaram esta região. Agora, como o processo de colonização do Piauí foi extremamente destruidor e violentíssimo, resta-nos trabalhar com as informações que conseguimos na arqueologia. Nós temos peças que, em geral, informam períodos mais antigos, mas trabalhamos, também, com informações mais recentes. Nós temos achados de setecentos e cinqüenta anos, de quinhentos anos, de trezentos e noventa anos. Nós estamos chegando bem perto do momento da chegada do invasor europeu. Quando isso ocorrer, nós vamos poder, então, reconstituir toda a história do Homem aqui na região.
Paulo Machado – Nós estamos tentando desenvolver um trabalho de pesquisa histórica em relação ao processo de extermínio das nações indígenas ocorrido no Piauí. Uma das hipóteses que conseguimos elaborar é a de que a nação Tremembé, que habitava, inicialmente, a faixa litorânea e as ilhas do Delta do Parnaíba, que tinha hábitos culturais bastante expressivos, foi a primeira nação a ser submetida ao processo de extermínio. Essa nação , que era da etnia cariri e constituída de muitas tribos, passou a desenvolver uma tática de resistência ao extermínio, que constituiu no deslocamento físico, com o distanciamento gradativo da região litorânea em direção às regiões sudeste e sudoeste. A partir dessa hipótese, pretendemos provar que, possivelmente, o processo de ocupação do solo da Capitania de São José do Piauí não se fez como sempre foi colocado pela historiografia oficial, orientado do sertão para o litoral, mas sim, orientado do litoral para o sertão. Há a possibilidade de, a partir da conjunção das informações históricas com as informações arqueológicas, chegarmos a reconstruir esse processo de ocupação?
Niède Guidon – Sim. É possível desde que encontremos artefatos culturais em sítios localizados ao longo desse percurso, com datações que informem sobre o deslocamento gradativo das tribos integrantes da nação Tremembé, orientado da região litorânea em direção ao sertão . Mós encontramos, aqui na chapada, uma pequena placa de cobre, que tem impresso em uma de suas faces um desenho heráldico de uma flor-de-lis. Encaminhamos a peça para o Museu das Forças Armadas da França e os estudiosos identificaram o achado como sendo um enfeite de um porta-espada, com provável datação do século XVII. Nós temos essa peça e ela será exposta no Museu do Homem Americano. Essa pequena placa de cobre que foi encontrada aqui, deve, sem dúvida, ter sido trazida de São Luís do Maranhão, região que esteve ocupada pelos franceses. E nós sabemos que a região que hoje corresponde ao Piauí esteve subordinada administrativamente ao Maranhão em um determinado período histórico, quando o Brasil era uma colônia portuguesa.
Paulo Machado – Professora Niède Guidon, fazer essa revisão, que os projetos de pesquisa sob sua coordenação propõem, significa, ideologicamente, descobrir novos roteiros para a reconstituição da história do Homem no Piauí. Esses novos roteiros trarão como conseqüências mudanças na estrutura de poder local. Já houve tentativas de interferências de grupos políticos na execução dos trabalhos desenvolvidos pela senhora ou pelo grupo de pesquisadores sob sua coordenação?
Niède Guidon - O nosso grupo não atrai a simpatia do sistema. Orientamos as nossas escolas que é necessário ler bem, escrever bem, saber aritmética básica e, principalmente, pensar. Dizemos sempre às nossas professoras que o essencial é que as crianças aprendam a pensar. E pensar é uma atividade que não agrada ao sistema. Dou o meu testemunho pessoal: formei-me integralmente no Brasil e a escola brasileira da minha época ensinava a pensar. Hoje, a escola brasileira não ensina mais a criança a pensar. Nós investimos muito dinheiro nas nossas escolas para obtermos um ensino básico de bom nível, enquanto o poder público se mantém omisso. Esta é a principal causa motivadora das tentativas de interferências dos grupos políticos na execução dos trabalhos desenvolvidos pelos grupos de pesquisadores sob minha coordenação. Externo, agora, minha opinião pessoal: não escondo que acho que o sistema vigente no Brasil é um sistema bandido e perverso. É um sistema que, inclusive, está desperdiçando tudo aquilo que nós temos de melhor. Existe um desperdício tremendo dos nossos recursos naturais, existe um desperdício tremendo dos nossos recursos humanos, porque a escola do nível da que existe no Brasil não pode ensinar ninguém a pensar. Existem pessoas geniais, aqui no Piauí, que poderiam mudar o curso da humanidade se tivessem acesso a um ensino digno, mas que não têm e são sacrificadas. O que o sistema vigente no Brasil está fazendo é um crime contra a Nação Brasileira.