A Geração Pós-69

                        Uma geração cultural estabelece relações dialéticas com as produções dos integrantes das que a antecederam e com as dos componentes da que a sucederá, mesmo que as proposições estéticas sejam antagônicas, o que se dá quando a sucedânea é insurgente, e não caudatária. O período de vigência de uma geração cultural, diferentemente do que ocorre com a biológica, não tem a sua extensão previamente estabelecida. Sua maior ou menor duração decorrerá da capacidade de realização dos seus integrantes e das relações estratégicas que estabeleça com as estruturas políticas e econômicas da época, fatos definidores de parâmetros para sua afirmação, consolidação e ocaso.

                        No Piauí, a produção dos participantes da Geração Pós-69, que congrega as manifestações culturais de literatura, artes plásticas e gráficas, artes cênicas, música e arquitetura, tornou-se pública já nos primeiros anos da década de 70, quando ocorreram as veiculações de textos impressos, ou não, em mimeógrafos (jornais, revistas, livros, etc) e nos suplementos encartados nos periódicos (principalmente O Dia, O Estado e Jornal da Manhã, os dois últimos já extintos). Frise-se que o contexto político e social da época do seu surgimento passou a ser questionado através da publicação e distribuição de livros, comercializados fora do circuito editorial formal, da organização de grupos de teatro amador e suas montagens inovadoras, das realizações cinematográficas locais a partir dos grupos originados do Cine Clube Piauiense, das exposições, individuais e coletivas, de artes plásticas, em espaços não convencionais, da feitura e veiculação dos trabalhos dos nossos primeiros cartunistas, chargistas e quadrinistas, e das realizações de pioneiros festivais de música e dos shows, também individuais e coletivos, que reuniam compositores, instrumentistas, cantores e cantoras interessados por novas referências culturais.

                        Nos últimos anos da década de 70 e durante a de 80, deu-se a fase de afirmação da Geração Pós-69, em decorrência da expressividade estética das obras de seus integrantes. Incomodadas, as forças contrárias às nossas proposições estéticas (fundadas estas, as nossas, em, entre outras, proposição de referências culturais vigorosas, de vanguarda ou não, na coloquialidade da linguagem, na ampliação dos suportes ou mídias, no aprofundamento da ruptura com o academicismo e na vinculação profunda entre arte e cotidiano), usaram a imprensa para difundir, equivocada e maldosamente, que os conteúdos das produções eram limitados por princípios políticos redutores de sua expressividade. Este confronto, aparentemente estético, era, na verdade, uma contraposição de essência ideológica que a crítica exercida à época, e até mesmo a desinformada e reacionária de hoje, tenta(va) dissimular.

                        Mas, decorridos trinta anos, a Geração Pós-69 vive, atualmente, a fase de consolidação. Com efeito, as suas melhores produções têm valores estéticos reconhecidos pela boa crítica e são selecionadas para os eventos mais representativos do final do século XX e princípios do XXI. Entretanto, a compreensão destes fatos exige uma análise criteriosa das relações dialéticas que os integrantes da Geração Pós-69 têm procurado estabelecer com as produções dos componentes das gerações antecedentes e, de forma especial, com as de alguns nomes da Geração 45, notadamente os da vertente não-conservadora do Grupo Meridiano.

                        São, na verdade, estes, fatos irrefutáveis, que ganharam relevância, no Piauí, nos dois últimos anos da década de 90, com a publicação da Revista Pulsar, que aglutina um considerável número de participantes autênticos da Geração Pós-69. É que os responsáveis pela viabilização da Revista estão interessados, mais especificamente, na identificação dos valores estéticos, políticos e ideológicos do período compreendido entre 1945 e 1969, porque estes anos têm seus termos inicial e final definidos por realizações científicas que modificaram profundamente a história da espécie humana (como as experiências com bombas atômicas e a chegada do homem à lua) e tiveram desdobramentos radicais nas décadas seguintes, contribuindo para a conjugação dos fatores determinantes (progressos na ciência, com a ultrapassagem dos limites da Terra, mudanças no comportamento, com movimentos libertários, que nem o hippie e o feminismo, e retrocessos na política, com a supressão das democracias, ainda que apenas formais, estas, em várias partes do mundo, em específico na América Latina e, claro, no Brasil dos generais, etc) do surgimento de uma nova geração, a Pós-69, no caso, representativa, sim, de um avanço estético inegável e difícil, hoje, de ser solapado por retrocessos meramente formalistas e aristocráticos, do tipo "grande arte", ou assépticos e omissos, do tipo "arte pela arte", definitivamente ultrapassados.

 

Paulo Machado

 

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